domingo, 3 de outubro de 2010

Encruzilhada

Talvez seja o momento de esperar pelo retorno do avatar;
sentar numa mesa de bar e ficar tomando um chopp,
jogando porrinha e bilhar,
à espera das bestas do apocalipse.

Quem sabe, não seja o momento de encontrar seu lugar no mato;
de partir, levando consigo apenas um celular e um i-pod,
para uma cabaninha na floresta ao lado do condomínio de luxo
afastado da cidade.

É possível que, na verdade, seja a hora de comprar uma AK-47
na mão de prestativos traficantes de armas,
invadir o congresso e chegar metralhando geral.
Tudo bem, eu sei, isso é meio precipitado:
metralhar só quem ficasse na frente das balas.

Por mais estranho que pareça, talvez seja tempo de seguir a vida,
leve e leviana, plácida e pérfida,
do jeitinho mesmo que temos seguido:
virando o rosto quando a miséria se nos mostra na rua;
engrossando a vista quando a injustiça surge diante de nós;
buscando qualquer prazer paliativo para a dor e a angústia.

Talvez seja o momento de puxar o gatilho contra a boca;
de trazer o mendigo para morar em nossa casa;
de construir uma nova arca.
Talvez seja a época de brincar com crianças nos parquinhos;
de visitar velhinhos sozinhos em asilos;
de fundar uma nova religião.
Talvez seja o instante de plantar uma árvore.

Talvez não seja tempo de nada.
Venha, venha:
vamos continuar urdindo nossos sonhos,
nossos ventos, nossas metas,
nossos destinos,
sem nem olhar a paisagem da janela.

Esqueçamos os momentos ideais,
as escolhas sem retorno,
as encruzilhadas.
Esqueçamos o inesquecível,
perdoemos o imperdoável,
compreendamos o incompreensível.
Se há uma hora certa a chegar, ela com certeza nos dará um aceno.

Venha, venha:
vamos continuar seguindo o redemoinho.

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