segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poema sem linha reta

O mundo caminha torto segue linhas tortas segue segue
chega sempre reto
ponto

Nossa mente curva turva nosso corpo recurvado curva do mundo
é que faz o mundo reto torto torto reto
ponto

reta

plano

Falta-nos um plano
astral que nos falta
Falta-nos um mapa
astral que nos falta

Falta-nos uma luneta
Quero do mundo apenas ver a lua
ter a lua em minha cara
ser a cara da lua
ser o sorriso da lua
ser o lado escuro da lua

Ser lua no momento em que há um eclipse
Ser lua como se a lua fosse ser humano
ser satélite

Ser cheio da lua cheia da lua feia da lua bela da lua velha
da lua nova
da lua novamente lua
nova mente lua
mente lua
toda lua
toda nua
mente nua

mente crua

mente cruamente mente
simplesmente
sem nada a oferecer
sem nada a florescer
sem nada mais a ser
a não ser mente
simples mente
mentecaptamente
mentecapta mente

mente capta mente
além da mente
mente que unicamente mente
ser mente
semente de mente
demente semente
sem mente
sem lua
sem nada
crua
crua mente
cruamente

crua

domingo, 3 de outubro de 2010

Encruzilhada

Talvez seja o momento de esperar pelo retorno do avatar;
sentar numa mesa de bar e ficar tomando um chopp,
jogando porrinha e bilhar,
à espera das bestas do apocalipse.

Quem sabe, não seja o momento de encontrar seu lugar no mato;
de partir, levando consigo apenas um celular e um i-pod,
para uma cabaninha na floresta ao lado do condomínio de luxo
afastado da cidade.

É possível que, na verdade, seja a hora de comprar uma AK-47
na mão de prestativos traficantes de armas,
invadir o congresso e chegar metralhando geral.
Tudo bem, eu sei, isso é meio precipitado:
metralhar só quem ficasse na frente das balas.

Por mais estranho que pareça, talvez seja tempo de seguir a vida,
leve e leviana, plácida e pérfida,
do jeitinho mesmo que temos seguido:
virando o rosto quando a miséria se nos mostra na rua;
engrossando a vista quando a injustiça surge diante de nós;
buscando qualquer prazer paliativo para a dor e a angústia.

Talvez seja o momento de puxar o gatilho contra a boca;
de trazer o mendigo para morar em nossa casa;
de construir uma nova arca.
Talvez seja a época de brincar com crianças nos parquinhos;
de visitar velhinhos sozinhos em asilos;
de fundar uma nova religião.
Talvez seja o instante de plantar uma árvore.

Talvez não seja tempo de nada.
Venha, venha:
vamos continuar urdindo nossos sonhos,
nossos ventos, nossas metas,
nossos destinos,
sem nem olhar a paisagem da janela.

Esqueçamos os momentos ideais,
as escolhas sem retorno,
as encruzilhadas.
Esqueçamos o inesquecível,
perdoemos o imperdoável,
compreendamos o incompreensível.
Se há uma hora certa a chegar, ela com certeza nos dará um aceno.

Venha, venha:
vamos continuar seguindo o redemoinho.